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terça-feira, 3 de setembro de 2013

Quintal

Google Images

Quintal

Hoje faz chuva de vento.

Lençóis d’água verticais
Disputam com roupas brancas
Um espaço nos varais.

Folhas varrem o quintal
De brinquedos esquecidos
Na hora do “não deu tempo”.

Menino chega pra dentro,
Espera um raio de sol,
Depois corre e vai brincar
Nos lençóis de água estendida
Que o céu deixou pra quarar.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Desperta

Imagem encontrada na internet

Desperta

Agora, homem, desperta!
Teus deuses pedem socorro
Enquanto, em atos vazios,
Prosseguem rumo ao silêncio
Sem ter quem os interprete.

Desperta e liberta o tempo
Que se prendeu por acaso
Na densa rede de enganos
Tecida pelos teus signos,
Tentando ler-se uns aos outros.

Desperta e recria o sonho,
Pois sozinha a natureza
É sempre realidade.
Desperta, que é teu o dom
De dar sentido à existência.


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Delírio Diet

Quem já fez dieta sabe como é. :)

Delírio Diet

Verdes azeitonas
Tão mediterrâneas,
Tomates astecas
Ou maias, sei lá!
Alface, alcachofra,
Alpiste, almeirão
Têm jeito de árabe...
Mas, Deus, só faltava
Salada de alpiste!

segunda-feira, 11 de março de 2013

Saudade

Um poema da época em que os telefones tinham fio

Saudade

Meu gato brincando feliz pela sala
Não pula ou se enrola em novelo de lã.
Assiste novela, destrói persianas,
Estraga poltronas e come ração.
Se alguém telefona, se enrola no fio.
Tem gato na linha, mas gato sem lã.
Que a lã tricotada exige outra vida
E alguém que tricote. Saudade, vovó!



Foto retirada da Internet

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Artes Celestes

Uma de nossas antigas visões do universo

 Artes Celestes

 Noturno artífice, em moldura escura,
Ônix celeste que emoldura a altura,
Pendura finos fios de lua pura.

Celeste aurífice elabora auroras,
Mistos de agoras e outras tantas horas
Em que um dourado, céus afora, aflora.

Rimando noite, aurora ou pleno dia,
Não caberia em mim tanta magia.
Não crio, creio. A luz me queima e cria.


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Coreografia

A quem sabe ver beleza até em redemoinhos de poeira

Coreografia

De nada lhe serviremos
Se não nos souber olhar.

Somos areia grosseira,
Folhas soltas espalhadas,
Aparas sem importância
Sujando ruas, calçadas.

Do vento com seus volteios,
Girando em rápido salto,
Vem o anseio de ser visto
A levar-nos para o alto.

Seremos pobres andrajos,
Vestindo o senhor da dança
Que, ao final de cada ato,
De volta aos seus pés nos lança.

Somente assim serviremos
A quem souber se encantar,
Doando a cada momento
Um novo modo de olhar.


terça-feira, 3 de julho de 2012

Reflorir


Reflorir

Quem vai criar as flores do futuro?
Quem delas cuidará depois de mim?
Quem pedras tirará do solo duro
E tardes passará junto ao jardim?

De tanto amor às plantas, eu procuro
Um outro alguém que as ame tanto assim
E queira colorir o mundo escuro
Com flores que eu deixar depois do fim.

Entrego meu lugar de jardineiro
A quem fizer a terra primitiva
Florir como roseiras de um canteiro.

Parece paradoxo a tentativa:
Espero reflorir o tempo inteiro,
Em meu jardim, qual rosa ou sempre-viva.



terça-feira, 19 de junho de 2012

Algo contra Livros?

Fotomontagem da Super Mara, do blog Adiemus

Faz quase dois anos que iniciei este blog de nome estranho, "Algo além dos Livros". Na época, somente duas multiblogueiras me acompanhavam, a Super Mara, do "Adiemus", e a Anabel, do "Quer ler? Eu deixo!" e outros tantos blogs.

Depois surgiram dezenas de seguidores e amigos queridos que me acompanham mesmo sem entender direito de onde saiu e o que significa o título do blog. Agradeço a todos com carinho.

Mas, como não poderia deixar de ser, aparecem também uns desvairados agressivos que me acusam de ser "contra os livros, contra a leitura, contra a poesia, contra a literatura". Haja paciência!

Então vou postar novamente o poema que dá título ao blog. Espero que os amigos gostem e que os trolls virem pedra à luz do sol.

Algo Além dos Livros

Na vasta estante do tempo,
atrás de livros maiores,
ficou, há muito perdido,
o script de várias vidas.

Agora faz companhia
a mitos, a línguas mortas,
a histórias sem voz nem dono.

À noite esse estranho exército
invade o reino da lógica,
altera o rumo dos fatos
e passa a chamar-se “acaso”.
 
 

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Encomenda Póstuma

Achei esta foto no Google. Retiro se o dono pedir.

Encomenda Póstuma

Hoje encomendaram um poema póstumo.
Um rapaz armado assaltou-me em casa.
Não queria vídeo,
DVD não tinha.
Tomou toda a vodca,
Mas queria crack.

“Droga de poeta que não tem dinheiro
Nem cartão de crédito!
Passa a grana ou morre!”

Tentei convencê-lo:
Um poeta morto nada lhe valia.

“E um poeta vivo vale o quê? Poesia?”

Acertou-me o peito do lado direito
E gritou: “Não morre, frouxo de uma figa!
Foi de brincadeira. Anda, acorda logo!”

Segurou-me o pulso.
Implorou contrito:
“Olha, eu acredito nessa história toda
De ter outra vida quando a gente morre.
Se você for nessa... se bater as botas,
Manda uma mensagem, diz que me perdoa.
Manda lá pro centro... lá onde eu frequento.
Pode ser poesia.
Qualquer coisa serve.”

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Germinar

Poeminha cheio de erres, pra Camila do blog Vida Complicada

Germinar

Entre gruta e fruta
Em tributo ao fruto
Verde broto brota
Gretando sarjetas
Fraturando frestas

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Encomenda Bélica

Reinterpretação de "Guernica", de Danny M. Valdez,
gentilmente cedida para este blog. Thanks, Danny!
*
Poema que obteve o primeiro lugar no "XI Prêmio
Cidadão de Poesia", de Limeira - SP, em 2008

Encomenda Bélica

Hoje encomendaram um poema bélico:
Versos que provassem
Que a verdade importa quando está comigo
E meu deus é grande porque mata mais.

Deve ser escrito em vermelho vivo.
Nada de vermelho cor de sangue, escuro.
Querem tons vibrantes de cereja ao sol
Inspirando gritos de guerra incontidos.

Querem ameaças contra céus e infernos:
Pobre do diabo que estiver ao lado
Dos meus inimigos!
Pobre do anjo inútil que pensar em paz!
Jazerá prostrado onde o deus dos sábios
Mutilado jaz.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Encomenda Rápida

Premiado em Descalvado - SP, em 2006

Encomenda Rápida

Hoje encomendaram um poema rápido,
Prático e portátil...
Algo que coubesse em pastilhas doces,
Ultraefervescentes,
Ou poema em pó, dentro de envelope
Antirrealidade,
Que tornasse a vida menos indigesta.

Decidi prová-lo todo de um só gole.
Era tão pequeno!
Deixou só saudade de versos mais densos.
O gosto? Não lembro!

Restou, sobre o rótulo, o aviso inspirado:
Em qualquer dosagem,
O efeito miragem
Desmoronará em trinta segundos.


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Arco-Íris

Poema que ficou entre os 5 finalistas, na primeira etapa do
concurso TOC140 Poesia no Twitter, da Fliporto:

Arco-Íris

Mil pingos de chuva
seduzem a luz solar
que, em cores, se curva.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Fórmula

No fim só o que resta das fórmulas de física é a poesia.

Fórmula

A distância percorrida
na queda do lastro ao chão
é quase a exata medida
da saudade do balão.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Mais Tarde

Poema dedicado a todos os gatos gordos que já tive

Oi, pessoal!

O poema de hoje pede uma explicação.

Aqui onde moro, os poetas costumam propor desafios uns aos outros. Um dia, o poeta Esio Pezzato sugeriu o tema "Que herança irei deixar para este mundo". Saíram sonetos lindos falando sobre valores morais legados aos filhos.

Acontece que não tenho filhos, então resolvi fazer um soneto de brincadeira.

Mais Tarde

Pergunta-me o poeta Esio Pezzato
Que herança irei deixar para este mundo.
Mas como responder de modo exato,
Sem dia de partir, hora e segundo?

Se agora, por exemplo, as botas bato
E, em Terras dos Pés Juntos, me aprofundo,
Só deixo este soneto e um pobre gato
Faminto a se esgoelar miando fundo.

Soneto inacabado, gato à míngua...
Que herança mais mesquinha! Dobro a língua.
Ou bato na madeira e a língua mordo?

A morte que me aguarde. Eu vou mais tarde,
Deixando neste mundo, sem alarde,
Soneto terminado e um gato gordo.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Clepsidras

Poema classificado para a fase regional do Mapa Cultural Paulista

Clepsidras

Mania de precisão:
O homem que controlava
Os velhos relógios d’água
Sempre disse que faltava
“Uma gota pra hora exata”.

A menos ou a mais? Não importa!
O fato é que a hora certa,
Por certo, se esconderia
No pingo que lhe sobrasse
Ou no que lhe faltaria.

E que falta lhe faria
A conta da gota exata
Na exata conta da gota
Da qual faz parte este dia!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Cecília

 Em homenagem ao poema infantil "Leilão de Jardim",
de Cecília Meireles, escritora cujo rosto tornou mais
valiosas nossas antigas notas de cem cruzados novos

Cecília

No pomar abandonado,
tem água quando Deus manda.
Tem praga e tem passarinhos
bicando jabuticabas.
Tem árvore encipoada
jogando frutas ao chão
onde formigas se fartam;
folhas secas adubando
viçosas ervas daninhas.

No pomar abandonado,
menino pensa que a vida
não leu Cecília Meireles,
não entende de poesia
nem de Monteiro Lobato.

Onde estão as doces fadas
que tomam conta das árvores?
Quem compraria em leilão
um pomar abandonado?

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Nudez


Nudez
Toda mudança emudece
E quem se desnuda muda
Muito mais do que parece.
Minhas crenças silenciam
Quando se despem de mim.
Algumas poucas se aliam
À longa escada que galgo
Menos nu do que me vejo,
Mudando de algo em algo.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Cantar


Não creio ser melhor sofrer calado.
Prefiro opor à dor qualquer cantiga.
Cantando, mando ao mundo meu recado
E evito que a tristeza só prossiga.

Amores transformados em enfado
Encontram companhia mais amiga
Nos cantos de carinho abençoado
Que afastam, docemente, toda intriga.

Cantar é ter, nos lábios, oferendas;
Pôr luzes no viver, quando escurece;
Guardar-se do deserto, em leves tendas.

Um canto de alegria mais parece
Magia a ressurgir de velhas lendas
Ou anjos recitando antiga prece.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Bombardeio

As pegadas do temor demoram a se apagar.

Bombardeio

Em ziguezague, descendo,
O acaso premeditado
Nos atingiu como um raio.

Num raio de tantas milhas,
Tantas águas, tantas ilhas,
Nós fomos alvo perfeito,
Eleito na mosca, em cheio.

E lá se foi como veio,
Num ziguezague constante,
O acaso premeditado.
Quase tudo como antes:
Ilhas, águas, tantas milhas
E um feroz temor aos céus.