quarta-feira, 6 de julho de 2011

De Ostensílio a Tecnofóssil Vivo

Talvez vocês conheçam esta crônica do Diário do Engenho.
Resolvi trazê-la pra cá, porque se classificou para a fase
regional do Mapa Cultural Paulista

De Ostensílio a Tecnofóssil Vivo

A tecnologia envelhece mais rápido do que nós ganhamos dinheiro para substituir nossos ostensílios (utensílios de ostentação) eletrônicos por modelos último tipo. Produtos de ostentação pública, como celulares, ficam no topo da cadeia de renovações periódicas. Alguém ainda sai carregando um celular antigo, tipo tijolão? As TVs, como ostensílios domésticos, nos quais vemos o mundo e sonhamos ser vistos por ele, também são trocadas com frequência. Passam por achatamentos, esticamentos e fazem jus a uma infinidade de novos painéis e suportes decorativos para mostrar pras visitas.

No meio dessa gastança, alguns aparelhos permanecem essencialmente inalterados e sobrevivem desde períodos tecnológicos muito antigos. São tecnofósseis vivos. Claro que, em termos de tecnoconsumismo, a expressão “muito antigo” significa uns dez anos.

Antes visto como um ostensílio de primeira necessidade, o videocassete chegou à categoria de tecnofóssil vivo, ao sobreviver ao meteoro publicitário que anunciou a chegada do DVD. “Vídeo” ou “VCR”, para os íntimos, ele segue pacificamente ruminando suas fitas ao lado de novas tecnologias e deixou saudade nos que o trocaram por seu lerdo concorrente.

Nos primórdios da videolatria, a sofisticação e o preço do aparelho intimidavam os seres humanos adultos. As crianças, no entanto, aprendiam logo a abrir e fechar o compartimento da fita, que se erguia como um elevador, na parte superior do equipamento. Bastava os pais saírem, para os meninos colocarem seus carrinhos de brinquedo dentro do vídeo. O barulho das engrenagens emperrando precedia o grito e o chororô de “Pai, o videocassete engoliu meu carrinho!” E tocava levar o vídeo pro conserto!

Cães e gatos tampouco se intimidavam com a importância do VCR. Sem cerimônia, roíam o fio de seu controle remoto. Sim, o controle remoto era com fio. Acho até que só evoluiu para sem fio, por causa dos animais de estimação famintos. Por falar em fome… Quando a entrada da fita passou a ser feita por uma abertura frontal, o aparelho ganhou uma aparência mais amistosa para as crianças menores. Aos olhos delas, aquela grande boca retangular precisava ser alimentada com balas, chocolates e poderia (por que não?) aceitar chupetas.

Quando encontravam bolachinhas entre as engrenagens, as formigas se alegravam, mas seria injusto culpar as crianças pelo fato de alguns vídeos se tornarem verdadeiros formigueiros. O aparelho atrai formigas porque é quentinho e tem uma graxa doce, de cheiro apetitoso. Enquanto passeiam entre os componentes eletrônicos, as formigas são inofensivas, mas, quando morrem, liberam um ácido que danifica o aparelho. Pro conserto, outra vez!

Como um monstro mitológico, o VCR foi ganhando cabeças ao longo de sua evolução. Começou com uma de áudio e duas de vídeo. Terminou com sete, entre áudio, vídeo e apagamento. A cabeça, ou cabeçote, era o componente mais caro e frágil ao alcance do usuário metido a técnico. Quando a cabeça ficava suja, era comum haver quem se aventurasse a abrir o aparelho para limpá-la como se fazia com os cabeçotes dos velhos gravadores de fita K7, ou seja, usando álcool e um cotonete. Resultado? As fibras do algodão se enroscavam no cabeçote e o quebravam. Depois de desembolsar um bom dinheiro, os proprietários aprendiam como limpar direito ou deixavam a missão com os profissionais.

Por sorte, esses profissionais não se extinguiram. Foram apenas obrigados a evoluir, o que garante aos tecnofósseis atuais e futuros uma vida saudável enquanto existirem peças de reposição.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Cecília

 Em homenagem ao poema infantil "Leilão de Jardim",
de Cecília Meireles, escritora cujo rosto tornou mais
valiosas nossas antigas notas de cem cruzados novos

Cecília

No pomar abandonado,
tem água quando Deus manda.
Tem praga e tem passarinhos
bicando jabuticabas.
Tem árvore encipoada
jogando frutas ao chão
onde formigas se fartam;
folhas secas adubando
viçosas ervas daninhas.

No pomar abandonado,
menino pensa que a vida
não leu Cecília Meireles,
não entende de poesia
nem de Monteiro Lobato.

Onde estão as doces fadas
que tomam conta das árvores?
Quem compraria em leilão
um pomar abandonado?

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Nudez


Nudez
Toda mudança emudece
E quem se desnuda muda
Muito mais do que parece.
Minhas crenças silenciam
Quando se despem de mim.
Algumas poucas se aliam
À longa escada que galgo
Menos nu do que me vejo,
Mudando de algo em algo.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Música e Humor


Oi, pessoal! Acabou de sair meu texto sobre música popular brasileira e humor lá no Digestivo Cultural. Quando tiverem tempo, vejam se faltou alguém essencial. Aceito sugestões.

Aqui no blog, resolvi colocar uma das melhores versões de "Um Samba no Bexiga", de Adoniran Barbosa, interpretada pelo Carlinhos Vergueiro.

Como pode ser difícil entender esse português italianado, eis a letra:

Um Samba no Bexiga

Adoniran Barbosa

Domingo nós fumos num samba no bexiga,
Na rua Major, na casa do Nicola.
À mezza notte o'clock,
Saiu uma baita duma briga.
Era só pizza que avuava junto com as braciola.

Nóis era estranho no lugar
E não quisemo se meter.
Não fumos lá pra brigá, nós fumos lá pra comê.
Na hora "h" se enfiemo de baixo da mesa.
Fiquemo ali, de beleza, vendo o nicola brigá.
Dali a pouco, escuitemo a patrulha chegá
E o sargento Oliveira falá:
"Num tem importância
Vô chamá duas ambulância"

Oi, pessoal,
A situação aqui está cínica.
Os mais pior vai pras crínica.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Cantar


Não creio ser melhor sofrer calado.
Prefiro opor à dor qualquer cantiga.
Cantando, mando ao mundo meu recado
E evito que a tristeza só prossiga.

Amores transformados em enfado
Encontram companhia mais amiga
Nos cantos de carinho abençoado
Que afastam, docemente, toda intriga.

Cantar é ter, nos lábios, oferendas;
Pôr luzes no viver, quando escurece;
Guardar-se do deserto, em leves tendas.

Um canto de alegria mais parece
Magia a ressurgir de velhas lendas
Ou anjos recitando antiga prece.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

CariCarla

Minha mãe e meu marido concordam: Tá a minha cara!

Taí, gente! Pra quem fica perguntando como eu sou, não tem melhor resposta do que a caricatura feita pelo Érico San Juan.

Posso até ficar mais feiinha ou mais bonitinha, dependendo da foto e da (des)arrumação, mas boa parte da minha personalidade está aí, no desenho.

O Érico fez a caricatura na Festa das Nações de Piracicaba - SP, em, no máximo, uns três minutos. Talento é isso!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Desaforo, em Caxambu

Serpentes da medicina se desafiam no balneário de Caxambu

Durante a Semana Santa, fiquei hospedada em Caxambu - MG. A cidade abriga o maior complexo hidromineral do mundo, com 12 tipos de água, para tratamento de inúmeros males.

Em 1868, a Princesa Isabel e seu marido, o Conde d'Eu, recorreram a uma dessas águas para curar a princesa de uma anemia que a impedia de ter filhos. Grata pelo sucesso do tratamento, a princesa ergueu em Caxambu a igreja de Santa Isabel da Hungria. Desde então, a cidade passou a atrair um número impressionante de nobres e plebeus.

Turistas não lhe faltam e, onde há turistas, há guias tentando mostrar pontos pitorescos e fazer atividades interessantes. Meu guia regional, depois de falar do que sabia e inventar o que ignorava, propôs um desafio, um torneio de desaforos, à moda dos repentistas. Começou mineiramente, com o "clássico":

Uai, uai,
Quem tropica também cai.
Sua mãe morreu sem dente
De tanto morder seu pai.

E daí descambou:

O seu pai se chama Porco.
Sua mãe, Porca Maria.
Seus irmãos são uma porcada.
Olha só que porcaria!

Versos depois, tive que dizer alguma coisa e deixei este mimo do desaforo regional:

Caxambu tem morro e água.
Baependi, mais morro ainda.
Quando seu pai põe anágua,
Sua mãe acha ele linda.

Pronto, participei. :)
Mas que linda brincadeira pro Sábado de Aleluia!