sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Canção do Inconsciente


Canção do Inconsciente

Trarei pequenas verdades
Somente se o espelho antigo
Forrar com seus estilhaços
A estrada por onde sigo.

Trarei o sopro dos sonhos
Brincando de ventania
Enquanto minhas procelas
Singrarem a noite fria.

Trarei de rios e lagos
Sereias envelhecidas,
Tecendo o sono afogado
Nas almas dos suicidas.

Passando a viver inteiro
No mundo que agora invades,
Qual sombra nos teus caminhos,
Trarei pequenas verdades.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Tô Grávida

Texto ficcional, em homenagem a uma avó estarrecida

Tô Grávida

Minha filha chegou e me disse: Mãe, tô grávida.

Foi assim, de repente. Quero dizer, foi de repente que ela me disse. A gravidez em si não teve nada de repentina. Fazia tempo que andavam praticando.

— Foi bom pra você também, querida? — perguntei.

Sou uma avó moderna, detesto crendices, mas sei que concepção sem diversão gera bebês com cara de tédio. Já pensaram que horror, meu neto nascendo com jeito de burocrata? As visitas chegando no quarto e encontrando uma pastinha 007 como enfeite de porta!

— Fica tranqüila, mãe, seu neto foi muito bem transado. Eu pelo menos me diverti pra valer!

— Como assim, querida? Só você se divertiu? E o rapaz? Você não forçou a barra, forçou? Não fez o pobrezinho transar contra a vontade, fez?

Ela me olhou de lado, sem responder, como se esperasse que eu esquecesse o assunto ou mudasse de pergunta. Insisti:

— Foi sexo consensual, não foi, minha filha?

— Como assim “consensual”? — ela perguntou.

— Você sabe, a palavra diz. “Consensual”, sensual para as duas (ou mais) partes. Quer dizer que todos os envolvidos gostaram, que ninguém fez nada à força.

— Ah, é isso! — riu com alívio — Pode desencanar. Foi consensual elevado ao cubo, todas as partes adoraram. Boa noite, mãe!

Ela foi dormir e eu desencanei. Depois pensei melhor e encanei de novo. Como assim “consensual elevado ao cubo”? Como assim “todas as partes adoraram”?

— Ei, menina, explica melhor! Quantas partes envolvidas tem esse consenso?

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Captura

Poesia, tentativa de capturar a beleza fugidia.

Captura

Beleza, face do efêmero,
transbordamento e vertigem.
Buscá-la é estar prisioneiro
de procura interminável,
pois quando o belo se deixa
pousar e posar um pouco,
perde os ares de vertigem,
ganha um gosto adocicado,
princípio de tédio e náusea.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Todos os Santos

São Nunca, escondido atrás de outros santos

Todos os Santos

São Nunca
das promessas orgulhosas,
do “jamais”,
do “nem que eu morra”,
do desejo que tortura
mesmo negado e proscrito!
São Nunca de todos os santos,
que este pranto aprenda um dia
a ser menos taxativo,
mais gentil com seus temores,
menos austero comigo!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Nada Light

Bom, vamos ampliar o panorama e adoçar o rumo desta prosa! Em vez de apenas Recife, o Nordeste em geral. Que tal um pouquinho de arte degustável?

Bolo de rolo. O certo é fatiar fininho assim.

No café-da-manhã de qualquer hotel nordestino que se preze, você vai encontrar bolo de rolo. É um tipo de rocambole de massa amanteigada, fininha e com recheio de goiabada. No Shopping Recife, tem bolo de rolo em caixas, super prático pra viagem. Não comprei e me arrependi.

O queijo coalho até que é meio light. Já o melaço...

Outra delícia do café-da-manhã é o queijo coalho. Acontece que eu adoro queijo, então comia queijo coalho com melaço no lanche e um sanduíche de dois andares, de queijo coalho com fritas, no jantar.

Um doce com muitos nomes: caju passa, passa de caju, caju ameixa...

Caju passa é um doce que vale a pena experimentar e levar pra casa. Dá um trabalho medonho pra fazer e é divino. Deixe, também, um lugarzinho na mala pras barrinhas de caju e pro nego bom (uma bala de banana batida com açúcar quase queimado).

Nego Bom parece bananada comum. Só parece.

É claro que o Nordeste tem pratos sofisticados à base de peixe e frutos do mar. Mesmo bares e restaurantes simples podem fornecer refeições de primeira, acompanhadas por um bom vinho. Essas eram as opções do meu marido. Como sou uma formiga quase vegetariana, preferia queijo coalho, água de coco e um docinho.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Um Grande Colecionador

Outro programa imperdível em Recife é visitar o Instituto Ricardo Brennand. Reparem bem que eu escrevi "Ricardo" e não "Francisco". Os dois são primos e têm 83 anos. Francisco é o artista da Oficina de Cerâmica Brennand. Ricardo é o colecionador de armas e arte, que construiu um castelo para guardar parte de sua coleção.

O castelo faz parte do complexo que inclui pinacoteca e biblioteca

O Instituto Ricardo Brennand é aberto ao público. Você pode percorrer o local sozinho ou optar por uma visita guiada. Veja os horários no prédio da pinacoteca, onde se encontra a exposição de arte e cultura do período "Brasil Holandês", além de obras sacras barrocas, estátuas de cera da corte francesa, sarcófagos e várias obras de períodos e autores diversos.

Escultura em tamanho natural

Poucas cordas, cercando algumas peças especiais, possuem alarmes. Em geral, as obras se encontram ao alcance das mãos. Adultos e crianças devem resistir à tentação de tocar os objetos não apenas para evitar causar-lhes dano, mas pela segurança pessoal. As armas brancas são verdadeiras e podem ferir.

Há dezenas de armaduras. Até para cavalo e cachorro.

A exposição se estende pelos gramados do castelo. Há esculturas de Botero à beira do lago. Um guarda com um apito fica a postos para controlar as crianças que pretendam escalá-las.
 
 
Amazona gigantesca de Botero

Recentemente chegaram ao instituto grandes estátuas de deuses e outras peças indianas. Estão no castelo, em meio a armas brancas, quadros, vitrais, esculturas e algumas armas de fogo, como os pequenos canhões. Épocas e lugares se misturam. Recomendo a visita guiada.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Oficina Brennand

Depois de longa e ensolarada ausência, aqui estou para atualizar o blog e contar o que tem de imperdível em Recife.

Nossa Senhora, que esculturas!

Começo pelo universo surrealista da Oficina Brennand. Trata-se de uma velha fábrica de tijolos e telhas que o artista Francisco Brennand, atualmente com 83 anos, herdou e transformou em uma colossal exposição de suas esculturas em cerâmica.

Em cada peça, as iniciais F. B. e o ano de criação

Prepare-se para andar bastante. O lugar é enorme e tem obras por toda parte: nos jardins, no salão das esculturas, na Praça Burle Marx, ao redor do anfiteatro, nos pequenos templos construídos nos antigos fornos para cerâmica e por aí vai.

A cerquinha de arco e flecha simboliza um orixá. Quem adivinha qual?

O conjunto arquitetônico, com suas esculturas fálicas e símbolos religiosos, parece uma recriação onírica de um templo pagão, dedicado à fertilidade.

Parte do Templo Central, cercado por água e ovos

Programa contraindicado para os casos graves de intolerância erótico-religiosa.

Há esculturas menores à venda