terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Todos os Santos

São Nunca, escondido atrás de outros santos

Todos os Santos

São Nunca
das promessas orgulhosas,
do “jamais”,
do “nem que eu morra”,
do desejo que tortura
mesmo negado e proscrito!
São Nunca de todos os santos,
que este pranto aprenda um dia
a ser menos taxativo,
mais gentil com seus temores,
menos austero comigo!

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Nada Light

Bom, vamos ampliar o panorama e adoçar o rumo desta prosa! Em vez de apenas Recife, o Nordeste em geral. Que tal um pouquinho de arte degustável?

Bolo de rolo. O certo é fatiar fininho assim.

No café-da-manhã de qualquer hotel nordestino que se preze, você vai encontrar bolo de rolo. É um tipo de rocambole de massa amanteigada, fininha e com recheio de goiabada. No Shopping Recife, tem bolo de rolo em caixas, super prático pra viagem. Não comprei e me arrependi.

O queijo coalho até que é meio light. Já o melaço...

Outra delícia do café-da-manhã é o queijo coalho. Acontece que eu adoro queijo, então comia queijo coalho com melaço no lanche e um sanduíche de dois andares, de queijo coalho com fritas, no jantar.

Um doce com muitos nomes: caju passa, passa de caju, caju ameixa...

Caju passa é um doce que vale a pena experimentar e levar pra casa. Dá um trabalho medonho pra fazer e é divino. Deixe, também, um lugarzinho na mala pras barrinhas de caju e pro nego bom (uma bala de banana batida com açúcar quase queimado).

Nego Bom parece bananada comum. Só parece.

É claro que o Nordeste tem pratos sofisticados à base de peixe e frutos do mar. Mesmo bares e restaurantes simples podem fornecer refeições de primeira, acompanhadas por um bom vinho. Essas eram as opções do meu marido. Como sou uma formiga quase vegetariana, preferia queijo coalho, água de coco e um docinho.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Um Grande Colecionador

Outro programa imperdível em Recife é visitar o Instituto Ricardo Brennand. Reparem bem que eu escrevi "Ricardo" e não "Francisco". Os dois são primos e têm 83 anos. Francisco é o artista da Oficina de Cerâmica Brennand. Ricardo é o colecionador de armas e arte, que construiu um castelo para guardar parte de sua coleção.

O castelo faz parte do complexo que inclui pinacoteca e biblioteca

O Instituto Ricardo Brennand é aberto ao público. Você pode percorrer o local sozinho ou optar por uma visita guiada. Veja os horários no prédio da pinacoteca, onde se encontra a exposição de arte e cultura do período "Brasil Holandês", além de obras sacras barrocas, estátuas de cera da corte francesa, sarcófagos e várias obras de períodos e autores diversos.

Escultura em tamanho natural

Poucas cordas, cercando algumas peças especiais, possuem alarmes. Em geral, as obras se encontram ao alcance das mãos. Adultos e crianças devem resistir à tentação de tocar os objetos não apenas para evitar causar-lhes dano, mas pela segurança pessoal. As armas brancas são verdadeiras e podem ferir.

Há dezenas de armaduras. Até para cavalo e cachorro.

A exposição se estende pelos gramados do castelo. Há esculturas de Botero à beira do lago. Um guarda com um apito fica a postos para controlar as crianças que pretendam escalá-las.
 
 
Amazona gigantesca de Botero

Recentemente chegaram ao instituto grandes estátuas de deuses e outras peças indianas. Estão no castelo, em meio a armas brancas, quadros, vitrais, esculturas e algumas armas de fogo, como os pequenos canhões. Épocas e lugares se misturam. Recomendo a visita guiada.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Oficina Brennand

Depois de longa e ensolarada ausência, aqui estou para atualizar o blog e contar o que tem de imperdível em Recife.

Nossa Senhora, que esculturas!

Começo pelo universo surrealista da Oficina Brennand. Trata-se de uma velha fábrica de tijolos e telhas que o artista Francisco Brennand, atualmente com 83 anos, herdou e transformou em uma colossal exposição de suas esculturas em cerâmica.

Em cada peça, as iniciais F. B. e o ano de criação

Prepare-se para andar bastante. O lugar é enorme e tem obras por toda parte: nos jardins, no salão das esculturas, na Praça Burle Marx, ao redor do anfiteatro, nos pequenos templos construídos nos antigos fornos para cerâmica e por aí vai.

A cerquinha de arco e flecha simboliza um orixá. Quem adivinha qual?

O conjunto arquitetônico, com suas esculturas fálicas e símbolos religiosos, parece uma recriação onírica de um templo pagão, dedicado à fertilidade.

Parte do Templo Central, cercado por água e ovos

Programa contraindicado para os casos graves de intolerância erótico-religiosa.

Há esculturas menores à venda

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Cristaleira

Quem nunca roubou doces atire, pra cá, o primeiro bombocado!

Cristaleira

Divindade inexorável,
A cristaleira da sala
Guardava porta-retratos
Dos quais ancestrais me olhavam.
Gente que, fora da foto,
Vivia menos altiva
Parecia reprovar-me.

Arrogante cristaleira
Cheia de taças compridas
Que a ninguém interessavam
Guardava, ainda por cima,
Bem lá em cima, na verdade,
Um grande pote de doces
Que eu ganharia se fosse
Um doce por não roubá-los.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Pó de Broca

Fazia dez anos que Eulália pensava em livrar-se do sítio. Aquele lugar de má sorte estava acabando com sua família. Seus filhos viviam doentes. Os vizinhos ajudavam como podiam, mas gostavam de fazer piadas, dizendo que o mal era preguiça.

Na semana em que seu neto mais velho morreu de “doença ruim”, Eulália soube que um hotel de luxo pretendia adquirir terras na região. Os proprietários locais enfileiravam-se para falar com o administrador do projeto e oferecer-lhe seus imóveis. Desesperada para salvar os netos restantes, Eulália resolveu furar a fila. Em seus sessenta anos de muita luta e pouco estudo, aprendera que “gente importante gosta de papel”. Escreveu:

Senhor gerente do HOTEL

Meu nome é Eulália ao seu dispor e tenho um sítio lindo pra vender. Ele é bem grande e tem muito mato atlântico que dá pra botar abaixo com machado ou tacando fogo. Tem bicho pequeno bom de caçar. Onça eu garanto que não tem mais. Meu falecido acabou com a última. O cafezal tá judiado, mas, se o senhor fizer gosto em continuar a plantação, pode ficar com todo o pó de broca do nosso depósito. É um veneno tão bom que o governo não deixa mais vender. Quem tem esconde porque vale ouro, mas o senhor pode ficar com ele junto com o sítio. Pergunte de mim na farmácia do Juca que eles mostram onde eu moro.

Sua criada Eulália Braga

O hotel comprou o sítio por uma ninharia quando Eulália soube que seu cancerígeno depósito de BHC não era tão bom quanto parecia. O “mato atlântico” e seus bichos à beira da extinção foram preservados e atraem ônibus de turistas.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Calendário


Tem saúva na folhinha,
Sobre a mesa do café.
Passou pelo mês passado,
Parou no dia de hoje,
Seguiu sobre o mês que vem.

Depois desfez seu caminho,
Zanzou por tempos confusos
E desceu do calendário.

Em breve, serão dezenas
De formigas viajando
Pelas páginas de tempo,
Colhendo cada farelo
De pão doce derrubado.

Mais insetos trabalhando
Sobre as sobras que deixamos
Ao planejar o futuro
Comendo o presente às pressas,
Por cima do calendário.