segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Um Grande Colecionador

Outro programa imperdível em Recife é visitar o Instituto Ricardo Brennand. Reparem bem que eu escrevi "Ricardo" e não "Francisco". Os dois são primos e têm 83 anos. Francisco é o artista da Oficina de Cerâmica Brennand. Ricardo é o colecionador de armas e arte, que construiu um castelo para guardar parte de sua coleção.

O castelo faz parte do complexo que inclui pinacoteca e biblioteca

O Instituto Ricardo Brennand é aberto ao público. Você pode percorrer o local sozinho ou optar por uma visita guiada. Veja os horários no prédio da pinacoteca, onde se encontra a exposição de arte e cultura do período "Brasil Holandês", além de obras sacras barrocas, estátuas de cera da corte francesa, sarcófagos e várias obras de períodos e autores diversos.

Escultura em tamanho natural

Poucas cordas, cercando algumas peças especiais, possuem alarmes. Em geral, as obras se encontram ao alcance das mãos. Adultos e crianças devem resistir à tentação de tocar os objetos não apenas para evitar causar-lhes dano, mas pela segurança pessoal. As armas brancas são verdadeiras e podem ferir.

Há dezenas de armaduras. Até para cavalo e cachorro.

A exposição se estende pelos gramados do castelo. Há esculturas de Botero à beira do lago. Um guarda com um apito fica a postos para controlar as crianças que pretendam escalá-las.
 
 
Amazona gigantesca de Botero

Recentemente chegaram ao instituto grandes estátuas de deuses e outras peças indianas. Estão no castelo, em meio a armas brancas, quadros, vitrais, esculturas e algumas armas de fogo, como os pequenos canhões. Épocas e lugares se misturam. Recomendo a visita guiada.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Oficina Brennand

Depois de longa e ensolarada ausência, aqui estou para atualizar o blog e contar o que tem de imperdível em Recife.

Nossa Senhora, que esculturas!

Começo pelo universo surrealista da Oficina Brennand. Trata-se de uma velha fábrica de tijolos e telhas que o artista Francisco Brennand, atualmente com 83 anos, herdou e transformou em uma colossal exposição de suas esculturas em cerâmica.

Em cada peça, as iniciais F. B. e o ano de criação

Prepare-se para andar bastante. O lugar é enorme e tem obras por toda parte: nos jardins, no salão das esculturas, na Praça Burle Marx, ao redor do anfiteatro, nos pequenos templos construídos nos antigos fornos para cerâmica e por aí vai.

A cerquinha de arco e flecha simboliza um orixá. Quem adivinha qual?

O conjunto arquitetônico, com suas esculturas fálicas e símbolos religiosos, parece uma recriação onírica de um templo pagão, dedicado à fertilidade.

Parte do Templo Central, cercado por água e ovos

Programa contraindicado para os casos graves de intolerância erótico-religiosa.

Há esculturas menores à venda

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Cristaleira

Quem nunca roubou doces atire, pra cá, o primeiro bombocado!

Cristaleira

Divindade inexorável,
A cristaleira da sala
Guardava porta-retratos
Dos quais ancestrais me olhavam.
Gente que, fora da foto,
Vivia menos altiva
Parecia reprovar-me.

Arrogante cristaleira
Cheia de taças compridas
Que a ninguém interessavam
Guardava, ainda por cima,
Bem lá em cima, na verdade,
Um grande pote de doces
Que eu ganharia se fosse
Um doce por não roubá-los.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Pó de Broca

Fazia dez anos que Eulália pensava em livrar-se do sítio. Aquele lugar de má sorte estava acabando com sua família. Seus filhos viviam doentes. Os vizinhos ajudavam como podiam, mas gostavam de fazer piadas, dizendo que o mal era preguiça.

Na semana em que seu neto mais velho morreu de “doença ruim”, Eulália soube que um hotel de luxo pretendia adquirir terras na região. Os proprietários locais enfileiravam-se para falar com o administrador do projeto e oferecer-lhe seus imóveis. Desesperada para salvar os netos restantes, Eulália resolveu furar a fila. Em seus sessenta anos de muita luta e pouco estudo, aprendera que “gente importante gosta de papel”. Escreveu:

Senhor gerente do HOTEL

Meu nome é Eulália ao seu dispor e tenho um sítio lindo pra vender. Ele é bem grande e tem muito mato atlântico que dá pra botar abaixo com machado ou tacando fogo. Tem bicho pequeno bom de caçar. Onça eu garanto que não tem mais. Meu falecido acabou com a última. O cafezal tá judiado, mas, se o senhor fizer gosto em continuar a plantação, pode ficar com todo o pó de broca do nosso depósito. É um veneno tão bom que o governo não deixa mais vender. Quem tem esconde porque vale ouro, mas o senhor pode ficar com ele junto com o sítio. Pergunte de mim na farmácia do Juca que eles mostram onde eu moro.

Sua criada Eulália Braga

O hotel comprou o sítio por uma ninharia quando Eulália soube que seu cancerígeno depósito de BHC não era tão bom quanto parecia. O “mato atlântico” e seus bichos à beira da extinção foram preservados e atraem ônibus de turistas.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Calendário


Tem saúva na folhinha,
Sobre a mesa do café.
Passou pelo mês passado,
Parou no dia de hoje,
Seguiu sobre o mês que vem.

Depois desfez seu caminho,
Zanzou por tempos confusos
E desceu do calendário.

Em breve, serão dezenas
De formigas viajando
Pelas páginas de tempo,
Colhendo cada farelo
De pão doce derrubado.

Mais insetos trabalhando
Sobre as sobras que deixamos
Ao planejar o futuro
Comendo o presente às pressas,
Por cima do calendário.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A Fuga

Celulares recheiam o pão de cada dia nos presídios.

A Fuga

"...Não, Analu, não tem problema! Eu já disse que vai ser moleza... Alô! Olha, vou repetir: a gente cava o túnel; passa por baixo do pátio; arrebenta o muro do presídio... Não, sua burra, a gente não vai sair do túnel. A gente fica lá dentro mesmo e arrebenta a parte do muro que fica dentro da terra. Daí a gente cava mais um pouco e sai dentro da sua casa... É claro que não tem perigo; é só o pessoal aqui do pavilhão. Tudo limpeza! Eu não ia levar bandido pra sua casa e, além do mais... Como? Se vai arrebentar o ladrilho?... Ladrilho de onde, minha filha?... Não, Analu, ninguém vai arrebentar ladrilho do seu banheiro. O banheiro é só pro pessoal tomar banho, trocar o uniforme, essas coisas... Vamos, vamos sair no quarto... É, vai estragar o sinteco. Depois a gente manda arrumar. Entendeu tudo?... Não?... Então faz o seguinte: amanhã eu te ligo de novo... É, vão me emprestar o telefone do delegado... Não, corta essa de falar do nosso futuro! Falar de amor em celular, nem morto! Tremenda cilada! Até amanhã, Analu!"

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Acampamento

Pros meus amigos urbanos, para aprenderem que
cada canto tem seu espanto e cada dia, sua fobia.

Acampamento

Clareira de pernoitar!

Nossos passos pela mata
Trazem temores urbanos.
Somos desacostumados
Ao mal sobrenatural.
Não nos assaltam fantasmas
De esvoaçantes mortalhas,
Mas fantasmas de assaltantes
Armados até os dentes.

Clareira de acampamento
Com muito medo e comida
Trazidos lá da cidade.

Não vemos, na pedra negra
Que hoje nos serve de mesa,
O altar de velhas magias
Nem percebemos, nos fios
De luar à beira mata,
As cordas de antigas harpas
Tangidas pelos morcegos
Em voos invocativos
Aos espíritos noturnos.

Jantamos entre fantasmas
Partilhando a pedra-altar.

Dois mundos que mal se tocam,
Mas que dormem lado a lado,
Quando se apaga a fogueira
Da clareira acampamento.